Só há uns dias percebi que ainda tenho a tua fotografia na minha secretária lá do trabalho. Estamos, aliás, os dois nela. Sorrimos como se nada de grave nos pudesse vir a afetar algum dia. Lembro-me perfeitamente de quando a tirámos.
Queríamos incluir as nossas princesas felinas na “foto de família” e por isso aguardámos que a sua natureza de animais “com bichos carpinteiros” nos permitisse ter um segundo sem o “mexe para lá, mexe para cá, arranha o sofá” do costume. De pouco adiantou, claro está. Ficaram ainda assim com uma expressão de quem não queria estar ali… Enfim… Quem tem gatos por casa sabe bem que não vale a pena dizer-lhes o que fazer - não me queixo, aprendi há muito o meu papel nesta relação de respeito mútuo.
Ainda penso muito em ti, em nós, aliás. Isto é sobretudo verdade quando me encontro comigo mesma nos momentos de silêncio do meu quotidiano. Quando me sento no sofá ou deito à noite na cama e não oiço qualquer som para além dos meus pensamentos. Com estes vêm atreladas as imagens de um passado feliz e de um hipotético futuro que se avizinhava igualmente sorridente.
O silêncio tem este poder de nos forçar a encontrar os nossos fantasmas e questionar a vida de uma forma geral. O silêncio e a cortina escura da noite, a mesma que me traz à mente as silhuetas desenhadas pela minha imaginação… Talvez assim se explique porque tantas vezes mantenho uma luz acesa enquanto durmo. Não sempre, mas nas noites em que me sinto mais sozinha e, por isso, mais acompanhada pelos pensamentos ruidosos que insistem em não me deixar pregar olho.
Mas é normal, ou assim se diz, que os efeitos secundários de uma separação incluam todos os sintomas acima mencionados e outros tantos.
Sei que o facto de ter conhecido outra pessoa me devia ajudar, mas continuar na casa onde nós partilhávamos tantos momentos não parece aliviar o processo. Tudo me traz à memória a tua pessoa.
Na impossibilidade de mudar de casa, como tu aliás fizeste, confio no tempo como conselheiro e terapeuta para me ensinar a esquecer-te, ou pelo menos, para me lembrar que a minha vida continua sem o “nós”.
A forma como reagimos perante uma separação diz muito sobre nós. Todos passamos por um período de negação, a que geralmente se segue uma aceitação algo dolorosa. Nesse espaço de tempo, que pode ser mais ou menos curto, deixamo-nos viver num limbo de incertezas onde o desleixo toma conta das nossas rotinas – ou daquilo que eram as nossas rotinas. Perde-se o sentido das coisas simples como cozinhar, comer, vestir bem, sair à rua. Na verdade, tudo o que fazíamos anteriormente transforma-se em qualquer coisa totalmente irrelevante. “Para quê?”, perguntei a mim mesma tantas vezes.
De alguma forma, no entanto, lá encontramos uma luz ao fundo do túnel que nos guia até à saída deste lugar escuro. É essa mesma luz que nos indica o caminho para uma vida renovada. E sorri-se de novo. Aprende-se a sorrir de novo.